terça-feira, 28 de abril de 2015

Seu espacinho...

Se um dia eu pudesse
montar um namorado perfeito
não, ele não seria você
Se um dia eu pudesse
juntar todas as qualidades do mundo
em uma só pessoa
com certeza, ela não seria você
Porém, ter um namorado perfeito
ou alguém sem defeitos
não fazem meu tipo
Eu quero alguém pra discutir
filosofar e dizer besteiras
Alguém para me fazer rir e chorar
Alguém que eu possa odiar de vez em quando
O meu namorado
não precisa ser perfeito
Ele só precisa ser assim,
bem do seu jeito!

Ananda SM

terça-feira, 27 de janeiro de 2015

Sexo?

Pegou o telefone e discou.
- Agência de empregos "Hoje é o seu dia", bom dia!
- Bom dia, eu gostaria de preencher um cadastro de interesse.
- Pois sim, qual o seu nome completo?
- Joan Souza Martins.
- Data de nascimento?
- Vinte e um de maio de mil novecentos e oitenta e sete.
- Sexo?
- Como assim, sexo? Se gosto de sexo? Mas é claro!
- Não, não, masculino ou feminino?
- Ah, por mim tanto faz, desde que a pessoa seja bacana...
- Não! Digo, o senhor, senhora, ahn, você, não me compreendeu bem. Quero saber se você é homem ou mulher.
- Ah, agora entendi...
- Pois bem, masculino ou feminino?
- Hum, qual a relevância dessa pergunta?
- Para mim, nenhuma. Mas para a empresa...
- Como assim, para a empresa? Não vivemos em uma sociedade igualitária? Em que mulheres e homens podem ocupar os mesmos cargos, realizar as mesmas tarefas... Para que se importar com qual dos instrumentos reprodutivos eu nasci? Isso é uma ficha para vaga de ator pornô, por um acaso?
- Não, senhor, senhora, digo... Escute bem, eu estou aqui apenas para disponibilizar à empresas dados relevantes sobre quem procura por um emprego. E, se está aqui sexo, significa que para elas é importante saber se você é homem ou mulher.
- Mas por quê? O fato de eu ser XX ou XY não tem tão grande relevância na minha inteligência ou força, que peçam meu mapeamento genômico então...
- Meu senhor, senhora ou seja lá como devo tratar, eu estou aqui apenas preenchendo um formulário, sem o/a conhecer, ver ou identificar seu sexo por seu nome ou voz. Porém, eu realmente preciso marcar um X em feminino ou masculino, não nos dois ou em nenhum. Então, o que vai ser?
- Deixa pra lá, eu ligo quando as coisas realmente mudarem.

Ananda S.M.

segunda-feira, 20 de outubro de 2014

Notas de um piano...

Era o mar dentro de mim
Indo e vindo
Afogando-me em mim mesma
Sem deixar porém
Ânsia por mais ar

Era o mar dentro de mim
Revirando e me buscando
Aflorando de tudo um pouco
De um tudo que há pouco
Eu não podia encontrar

Era o mar dentro de mim
Um mar calmo
que ao seu fim
Decidiu por si
Em meus olhos transbordar.

Ananda S.M.

quinta-feira, 29 de agosto de 2013

Certezas Líquidas

Sempre fora um caminho de certezas líquidas
 E com a sua liquidez decidiu se bifurcar
Dois caminhos, duas escolhas
Águas já conhecidas e densas
Águas à explorar, puras, límpidas
 Provei desta, águas que eram calmas
Águas que eram turbulentas...
Águas sobre as quais
Eu também fui deixando
Minhas marcas, meus pedaços
Meus destroços...
Águas as quais acabei por poluir
Logo após um braço
Daquele caminho esquecido
Voltar a me envolver
Braço que me puxou, reenvolveu-me
E assim eu deixei aquele feixe d'água
-que eu mesma encorpei-
Purificar-se sozinho
E agora, já envolvida, sofro
Pelo que fiz àquele rio virgem
Pelo que deixei de fazer a este rio
-Que agora me cerca-
Durante minha outra jornada...
Talvez, o melhor a ser feito,
Fosse mergulhar para sempre
Nas minhas próprias águas...

Ananda S.M.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Ventania

Chegas como aquele que carrega
o aroma das flores
Vais adentrando por todos os espaços possíveis
Perfumando cada canto meu
possuindo um espaço que já é teu

Suave, passas por minha pele
rosto e cabelos
enlaçando teus dedos aos meus...

Voraz, atinges meus lábios
Como o vento em uma tempestade
Ternamente, une-os aos teus...

És brisa suave
Que acaricia minha pele
Perfuma meu caminho
Um toque, um arrepio...

És furacão imprevisível
Quando atinges minha boca
Levando-me contigo
Em uma aventura
Completamente louca...

Ananda S.M.

quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Castelo de areia

Ela observava o sol romper pela janela, naquela tarde fria de inverno, aqueles raios oblíquos lembravam-lhe dos momentos felizes que passara ao lado do irmão, como a primeira vez que conheceram o mar, quando dividiram baldes e pás para construir um castelo, juntos, mas era um castelo de areia, hoje, com toda a certeza, já não estava mais lá. Ou ainda da indistinção de seus sorrisos na ciranda de roda, que não rodava mais.
Não conseguia entender o que se passara no mês anterior, uma semana após a morte de seu pai. Quando as lágrimas ainda estavam sobre sua face, seu irmão, dois anos mais novo, a procurou com um advogado para decidir o destino da casa, queria vendê-la e dividir o dinheiro, vender o seu lar, onde ambos cresceram.
Ela, obviamente, recusou e ele, nervoso, pois precisava do dinheiro para pagar dívidas, resolveu levar o caso ao tribunal de justiça. E era para onde ela se dirigia agora, após refletir muito sobre o assunto. Saiu de casa de carro, olhando fixamente para a rua, tentando não pensar.
Ele, já no tribunal, reclamava do atraso da irmã quando ela chegou e dirigiu um triste sorriso em sua direção, que foi retribuído com um olhar de desdém, de profunda mágoa. Para aquela mulher, a decisão tomada ali já não teria mais importância, ela já havia perdido o seu irmão.
O garoto ganhou a causa, e, quando foi procurar sua irmã para informar-lhe que havia compradores, ela parou diante dele, entregou-lhe um velho livro, virou as costas e se foi.
Quando o abriu, já sabia o que havia lá dentro, fotos, cartas, cartões. Uma lágrima caiu sobre aquelas doces lembranças, e ele percebeu que não a veria nunca mais.

Ananda S.M.

Meia-noite em Paris

Era o nosso último dia na Cidade Luz, por isso decidimos conhecê-la o máximo possível. Fui para lá, na companhia de minha mãe, a fim de realizar meu mais profundo desejo: ver de perto toda a magnitude de Paris.

Depois de termos traçado nosso imenso roteiro, que abrangia os mais famosos pontos turísticos parisienses, desde o Museu do Louvre até a Torre Eiffel, partimos de metrô em direção àquele.

Visitamos rapidamente o museu (apesar de minha vontade ser passar um dia inteiro nele), dando preferência à Gioconda e à Vênus de Milo, terminando essa etapa com um almoço rápido no complexo subterrâneo do Louvre.

Partimos então, novamente de metrô, para a avenida mais bela do mundo: a Champs-Élysées. Caminhamos por ela até cansarmos e pegarmos o metrô até a Catedral de Notre-Dame.

Lá a conhecemos por dentro e por fora, comemos a famosa “crêpe” e seguimos em direção à magnífica Torre Eiffel, nossa última parada.

Nela ficamos até o escurecer, admirando lá de cima toda a beleza da Paris ao crepúsculo e à total escuridão, onde todas as suas luzes se acendem, em um espetáculo luminoso indescritível.

Após decermos e contemplarmos a Torre iluminada, decidimos que já era hora de voltarmos, pois o relógio marcava mais de onze horas.

Pegamos o metrô e partimos em direção à Porta de Versalhes, local onde ficava nosso hotel, sem imaginar que a nossa verdadeira aventura se iniciava ali. Após uma meia hora de percurso, chegamos à estação, que já não tinha o mesmo aspecto alegre de antes, é incrível como as coisas mudam durante a noite.

Como todo ser humano que se preze, tivemos medo ao seguir naqueles corredores desertos, pois os humanos sempre temem o vazio, mas continuamos, subimos a escada rolante, e como tudo sempre tem que complicar, nos deparamos com uma bifurcação, cada saída dando para uma rua.

Enquanto eu olhava em meu inseparável mapinha de bolso, essencial em todas as viagens (principalmente para as “perdidas”, como eu e minha mãe), para saber por qual caminho seguir, um homem espatifou-se no chão ao fim da escada rolante, aparentemente, sem motivo algum, fazendo o maior estrondo. Isso fez com que nossos corações ordenassem que nossas pernas se mexessem e nos tirassem dali. Mas como o nosso coração não conhecia Paris, nos dirigiu para o lado contrário ao que devíamos tomar.

Mesmo sabendo que estávamos no caminho errado, não ousamos voltar atrás por total covardia, mas quem é que voltaria? Perseguimos uma senhora que saíra do metrô na nossa frente, tentando chamar sua atenção. Quando ela finalmente parou, pude ver nos seus olhos o medo de que nós a assaltássemos. Após utilizarmos a linguagem universal da mímica, descobrimos que ela não era dali e, portanto não sabia onde se localizava o nosso hotel, mas mandou-nos perguntar em um mercadinho logo ali perto.

Quando chegamos, utilizamos novamente da linguagem mímica, linguagem muito importante quando não se fala nenhum outro idioma além do seu, para perguntar ao homem que atendia qual o caminho devíamos seguir. Ele mandou que retornássemos e seguíssemos em frente sempre.

Seguimos sua instrução, sem a menor ideia da veracidade dela, mas tínhamos que confiar, pois a rua estava completamente vazia. Depois de andarmos muito, sem um mínimo sinal de nosso hotel, encontramos uma portuguesa que confirmou a informação do homem, embora dissesse que nunca havia visto hotel nenhum ali por perto, baseou-se no nome da rua.

Sentindo a face arder e o coração gelar, sem saber nem ao certo se estávamos no caminho correto, começávamos a nos desesperar, quando avistamos um grupo de amigos, muito alegre, como desses que aparecem em filmes. Mostramos o mapa a eles e apontamos onde queríamos chegar. Eles nos mandaram retornar um quarteirão e virar a direita, que chegaríamos à ponte que ficava em frente ao hotel.

Obedecemos, já sem a mínima vontade de questionar se aquela era uma informação correta, somente a seguimos, olhando o relógio marcar meia-noite.

Finalmente chegamos à ponte, mas sem avistar o hotel, tudo o que víamos era uma avenida iluminada paralela à ponte. Paramos então nossa última fonte de informação: um homem em uma bicicleta. Ele nos mandou subir a avenida, subimos e na esquina avistamos o que tanto procurávamos.

E foi assim, à exata meia-noite e quinze de Paris, que eu cheguei a conclusão: se você puder escolher onde se perder, se perca em seu próprio país!!!

Ananda S.M.