quinta-feira, 18 de agosto de 2011

Castelo de areia

Ela observava o sol romper pela janela, naquela tarde fria de inverno, aqueles raios oblíquos lembravam-lhe dos momentos felizes que passara ao lado do irmão, como a primeira vez que conheceram o mar, quando dividiram baldes e pás para construir um castelo, juntos, mas era um castelo de areia, hoje, com toda a certeza, já não estava mais lá. Ou ainda da indistinção de seus sorrisos na ciranda de roda, que não rodava mais.
Não conseguia entender o que se passara no mês anterior, uma semana após a morte de seu pai. Quando as lágrimas ainda estavam sobre sua face, seu irmão, dois anos mais novo, a procurou com um advogado para decidir o destino da casa, queria vendê-la e dividir o dinheiro, vender o seu lar, onde ambos cresceram.
Ela, obviamente, recusou e ele, nervoso, pois precisava do dinheiro para pagar dívidas, resolveu levar o caso ao tribunal de justiça. E era para onde ela se dirigia agora, após refletir muito sobre o assunto. Saiu de casa de carro, olhando fixamente para a rua, tentando não pensar.
Ele, já no tribunal, reclamava do atraso da irmã quando ela chegou e dirigiu um triste sorriso em sua direção, que foi retribuído com um olhar de desdém, de profunda mágoa. Para aquela mulher, a decisão tomada ali já não teria mais importância, ela já havia perdido o seu irmão.
O garoto ganhou a causa, e, quando foi procurar sua irmã para informar-lhe que havia compradores, ela parou diante dele, entregou-lhe um velho livro, virou as costas e se foi.
Quando o abriu, já sabia o que havia lá dentro, fotos, cartas, cartões. Uma lágrima caiu sobre aquelas doces lembranças, e ele percebeu que não a veria nunca mais.

Ananda S.M.

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