Em um dia, quando eu já havia terminado meus afazeres diários, fui dar uma volta de bicicleta pelo meu bairro para aliviar as tenções. Já era umas seis horas da tarde, quando comecei a pedalar.
Fiquei observando aquelas belíssimas construções ilumindas, eram casas térreas, com andares, prédios... Uma infinidade de modelos e cores. Logo a frente, deparei-me com uma construção nada elegante, sem pintura, construída apenas com ripas de madeira.
Passei por ela sem repará-la, como se fosse a coisa mais normal do mundo. Alguns metros a frente ouvi um choro infantil, um choro muito sofrido, encostei a bicicleta e fui ver o que era. Um pouco antes de me comunicar com aquele ser indefeso o observei.
Podia ser um monte de ossos estremecendo-se, ou um cachorro de rua jogado a sargeta, ou ainda, um monte de lixo amontoado no chão. Mas não, aquilo, aqule ser, era uma criança, uma inocência jogada fora.
Aproximei-me dela e quando a toquei, ela recuou bruscamente e foi embora. Tentei me mexer e correr atrás dela, mas não consegui, minhas pernas não respondiam ao meu comando, a única coisa que me vinha em mente eram aqueles olhos estatalados, vermelhos, confusos, que me olharam por meio segundo, que pareceu uma eternidade.
Aquele olhos, os olhos de uma criança que teve sua infância roubada, que teve sua inocência violada. Nunca saberei o motivo daquele choro, talvez porque ela estivesse desde de manhã sem colocar um grão de arroz na boca, talvez porque ela tivesse sido vítima dessas violências que vemos na tevê.
Mas o fato é que enquanto poucas pessoas se afogavam no luxo a alguns metros dali, uma criança chorava, pois não tinha motivo para sorrir...
Ananda S.M.
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